54 anos depois, vitoriosos de 64 voltam ao poder pelo voto direto

Candidato com perfil para unir o país seria Geraldo Alckmin não fosse um político provinciano

Nem o mais arguto político mineiro seria capaz de prever que 54 anos depois do golpe militar de 64 um legítimo e sincero defensor daquele movimento, que interrompeu a democracia em nosso país durante 21 anos, seria eleito presidente da República ontem por mais de 50 milhões de brasileiros. 

O próprio Bolsonaro tinha dúvidas sobre suas chances porque sempre fez parte do baixo clero na Câmara Federal, não tinha por trás de si um grande partido e até o convite que fez ao PR para fazer parte de sua coligação foi recusado. Obrigou-se a convidar para vice o general da reserva Hamilton Mourão, filiado ao PRTB, única alternativa que lhe restou para conseguir fechar a chapa. 

O presidente eleito já provou na prática que não tem propriamente formação democrática, mas foi ajudado pelo fato de 70% dos eleitores brasileiros não terem conhecimento do que se passou no país nos “anos de chumbo” e seu principal meio de informação ser as redes sociais, onde predominam notícias falsas (“fake news”). Daí poder-se dizer com alguma margem de certeza que um terço dos eleitores do capitão votaram em solidariedade às suas teses. 

Mas os outros foram votos antipetistas em protesto contra a volta do partido ao poder depois que seu principal líder foi parar na cadeira acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Bolsonaro prometeu na campanha que seria o presidente da “pacificação nacional”, mas isto provavelmente não ocorrerá devido à sua ojeriza aos “vermelhos” que deram mais de 40% dos votos a Fernando Haddad. 

Afinal, como unir o Brasil com um discurso excludente e contra determinados tipos de minorias? Candidato com perfil para pacificar o Brasil seria o tucano Geraldo Alckmin, não fosse um político mais paulista do que nacional e não tivesse sido obrigado a carregar nas costas o desgaste de Aécio Neves e a traição da cobra que ele próprio criou para mordê-lo depois (João Doria).

Empurrão na reforma política
A reforma política que o Congresso não fez, e não fará jamais, acabou sendo empurrada pela eleição presidencial. Bolsonaro terá no Congresso o apoio de todas as “direitas”, independente de siglas (ruralistas, evangélicos, bancada da bala, etc.), e a oposição de todas as “esquerdas” (PT, PCdoB, PSB, PDT, PSOL, PSTU, etc). Teremos na Câmara um bipartidarismo de fato.

Dor doída > Ciro Gomes prestou notável serviço à campanha de Haddad mesmo não tendo declarado apoio ao petista. Só ter pedido aos seus eleitores que não votassem em Bolsonaro já foi uma ajuda. Cobrar-lhe apoio ao PT depois da “rasteira” que levou de Lula seria demais.

As portas > Apenas 2 dos 25 deputados federais pernambucanos têm trânsito com Bolsonaro para não deixar Paulo Câmara sem canal com Palácio do Planalto: Luciano Bivar (PSL) e Pastor Eurico (Patriotas). Parte deles ainda vai aderir à bancada do governo, mas não agora.

O vácuo > O PSDB saiu destroçado em Pernambuco no 1º turno e ninguém ainda se habilitou para tentar reconstruí-lo. O presidente Bruno Araújo vai morar no DF e não quer mais saber do cargo. A prefeita Raquel Lyra (Caruaru) poderia exercer esse papel, mas não mostra vontade.

A tradição > Desde 1998, quando a reeleição foi introduzida do Brasil por emenda de Mendonça Filho (DEM), nenhum governador do RS foi reeleito. O atual, Ivo Sartori (MDB), que encontrou o Estado quebrado, vai devolvê-lo ao ex-prefeito de Pelotas, Eduardo Leite (PSDB), um pouco melhor, mas ainda quebrado.


FONTE: FOLHA PE