Hospital das Clínicas é habilitado para atendimento a transexuais em PE

O Ministério da Saúde habilitou o Hospital das Clínicas (HC), vinculado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a oferecer atenção especializada no atendimento a transexuais para mudança de sexo. A habilitação foi publicada no Diário Oficial da União, nesta terça (14), e afirma que o custeio do impacto financeiro correrá por conta do orçamento do Governo Federal. A notícia foi recebida com entusiasmo pela equipe que lidera o processo de implantação do novo Espaço de Cuidado e Acolhimento Trans, que levará em conta critérios definidos pela Portaria 2.803/2013 para o atendimento de transexuais no SUS.

Em setembro deste ano, reportagem do G1 mostrou dificuldade no acesso de transexuais ao mercado de trabalho. A transexualidade é considerada uma doença pela Organização Mundial de Saúde, classificada como transtorno de identidade de gênero. Um transexual que nasce com sexo masculino, por exemplo, desenvolve uma extrema rejeição às suas características físicas e passa a querer se parecer com o gênero com o qual se identifica.

O Hospital da Clínicas, situado na Zona Oeste do Recife,  fazia a cirurgia de redesignação sexual desde 2001, mas há cinco anos não realiza o procedimento porque o médico responsável pelo setor se aposentou. Durante este período, a unidade de saúde recebeu demanda para cirurgia plástica, consulta ginecológica e endocrinologia, além de atendimento do serviço social para mudança de nome social.

A psicóloga Suzana Livadias, que faz parte do grupo que está liderando a instalação do novo espaço no HC, explica que, na época em que as cirurgias eram realizadas, não existia uma portaria que regulamentasse as práticas direcionadas ao público LGBT.
Em novembro de 2013, o ministério publicou a portaria que redefiniu e ampliou o processo transexualizador no SUS. As diretrizes em vigor para o atendimento a transexuais definem que os pacientes têm direito à atenção especializada com profissionais das áreas de endocrinologia, ginecologia, urologia, além de obstetras, cirurgiões plásticos, psicólogos, psiquiatras, enfermeiros e assistentes sociais.

Repercussão no estado
Integrante colegiada do Fórum LGBT em Pernambuco representando os trans, Choppely Santos explica que foi iniciativa do Comitê Técnico da Saúde LGBT, criado ano passado, trazer o processo transexualizador para o estado. "É uma ótima notícia, pois o HC teve uma má experiência nas cirurgias, onde tudo era feito em caráter experimental. Então, o comitê técnico em parceria com a Secretaria de Saúde pediu a habilitação do estado e um dos requisitos [da Portaria 2.803/2013] é que o serviço seja feito em hospital universitário para facilitar o repasse de verbas. Agora, tudo será feito da maneira correta", disse.
A psicóloga explicou que o governo estadual pediu que o HC entrasse com os documentos para a habilitação junto ao ministério. "A gente recebe com ótimos olhos a habilitação e estamos querendo reabrir o serviço até o final de ano, já com esta nova lógica do cuidado", informou.
Suzana Livadias comentou que, há um ano, o HC já trabalha na implantação deste novo modelo de atendimento, com campanhas de sensibilização dos funcionários. Neste momento, a equipe está convocando os profissionais sensíveis à causa para capacitá-los e integrá-los ao Espaço de Cuidado e Acolhimento Trans, que vai reunir diversas especialidades médicas.

Eles também aguardam a convocação dos aprovados no último concurso para saber quem quer trabalhar no espaço. "Ainda esperamos a organização da rede de saúde como um todo, pois precisamos fazer parcerias já que não conseguiremos atender à alta demanda. Queremos, por exemplo, que os municípios se organizem para encaminhar os pacientes ao HC e sejam criadas centros de referência no estado", disse.

Livadias ainda destacou que o HC quer oferecer mais que cirurgias aos transexuais. "Queremos mostrar que há outras possibilidades neste processo, com a hormonioterapia, que o SUS já está garantindo, e que o sujeito pode escolher de acordo com a sua necessidade. Além disso, queremos ampliar as intervenções, como oferecer atendimento dermatológico e fonoaudiológico", apontou. Chopely Santos apontou que dois transexuais indicados pelo comitê técnico já estão trabalhando junto à equipe do HC na implementação do ambulatório.

Fonte: G1 PE